É ALPACA OU ALCE? O D. O. M. DE ALEX ATALA

Há tempos que adicionei em minha lista de “coisas para fazer antes de morrer” ir ao restaurante D. O. M. de Alex Atala, o 18º melhor restaurante do mundo. Mas sabia que precisava organizar melhor minhas finanças para isso, pois num renomado restaurante como este não se pode entrar pensando em limites. A entrega tem que ser total, inclusive o que você tiver nos bolsos.

Sempre fui uma pessoa muito generosa, mas acredito que o universo se encarrega de devolver tudo o que você faz aos outros pelo simples prazer em ve-los felizes. E foi isso o que me aconteceu quando Nina, minha amiga e companheira peregrina de restaurantes e garfo, me convidou para irmos ao D. O. M. Finalmente meu sonho ia se realizar. Nina disse que havia ligado no restaurante e que não aceitavam reservas para aquele sábado e que o chef, infelizmente, não estaria presente. Mas resolvemos ir mesmo assim.

A nossa surpresa começou logo que o maître abriu a porta do restaurante e fomos recepcionados pelo próprio Alex, que devia ter mudado de ideia para nosso deleite. Sei que a equipe do D. O. M. funciona como um reloginho suíço e mesmo com a ausência do chef, consegue funcionar ainda por um bom tempo, mas nos sentimos mais confortáveis com o manda-chuva presente.

Fomos direcionados ao bar enquanto esperavamos a mesa ficar pronta. Escolhemos uma champanhe para ir começando a preparar nosso paladar. Uma bela lâmina de pedra nos foi colocado à frente com bruschettas tão finas que tinham a única função de sustentar a cobertura de tomates frescos com perfume de alho e manjericão. Nina que é sempre muito atenciosa a todos os detalhes, percebeu que o barman estava preparando um drink com fava de baunilha e pediu um também. Era simplesmente uma taça de champanhe com uma perfumadíssima fava de baunilha dentro. A única dificuldade era, depois de umas duas tentativas, bebe-lo sem que a fava cutucasse as narinas, coisa que Nina conseguia fazer com muita elegância. Risos pelo impasse, pela meia taça de champanhe que já havia sumido, pela noite e pelo momento.

A simpática hostess chegou para nos encaminhar até a mesa. Atravessamos o salão e nos sentamos com vista para a envidraçada cozinha, impecável!!!!! Na parede, ao lado da mesa, uma cabeça de uma caça. Os dois chifres paralelos e retilíneos quase alcançavam o teto. Enquanto o garçon arrumava o couvert sobre a mesa, Nina perguntou se aquilo era uma alpaca. O garçon sem a mesma confiança com que nos servia disse que era alce, mas prontamente retrucamos que não podia ser, alce não tinha aqueles enormes chifres retilíneos. Disse que ia procurar saber e já nos dava a definitiva resposta. Menu desgutacão de 11 pratos para dois, por favor – Nina comandou – e sem restrições!

Purê de alho assado, cesta de pães caseiros, manteiguinha Aviação na latinha e coalhada era só o prenúncio.

Purê de alho assado e coalhada

De repente, as luzes do bairro inteiro se apagam e o silêncio se faz absoluto. Me enchi de preocupação e por um minuto achei que a tão esperada noite havia se acabado. Mas quando se está no top of the world nada de ruim pode lhe acontecer e as velas foram se acendendo, inclusive na cozinha. Estavamos prestes a presenciar um absoluto jantar à luz de velas. A escuridão ajudou a tornar a noite ainda mais mágica já que os pratos brotavam da penumbra à nossa frente.

E a primeira magia foi: “lulas cozidas à frio, com creme de beterraba e óleo de priprioca (planta da Amazônia)”, uma explosão de perfume e textura. E como numa orquestra o compasso entre os pratos seguia perfeito. “Carpaccio de palmito fresco e vieiras de coral”, não conseguiamos conversar sobre mais nada. “Ostras empanadas em farinha de brioche com tapioca e ovas de salmão”, desce redondinho.

Consommé de cogumelos

“Consommé de cogumelos e brotinhos”, o paladar é despertado como nunca. E a sequência começa a ficar mais acentuada: “raia na manteiga de garrafa com tomilho limão, mandioquinha defumada, brócolis e espuma de amendoim”, hummmmm…

Não adianta comentar cada prato. Falta habilidade literária para descrever as sensações, mas as combinações do Alex tem movimento, cada bocado levado à boca ocupa espaços diferentes na língua. Há sempre uma nova textura, um novo detalhe, uma supresa. A cada prato, só conseguia pensar em como tudo aquilo é possível. “Esse é o cara!”

Mas, e aí? É alpaca? Nina aproveita para relembrar o garçon da promessa de nos matar a dúvida, já que estavamos na metade do serviço e nossas sensações duvidavam que ainda pudesse surgir algo mais inusitado. Ainda não sei – disse o garçon – mas já vou perguntar ao chef.

E veio “fetuccine de palmito à carbonara”, uma delicadeza! “Risoto líquido de coco com azeite de dendê, menta e nori”, inusitado.

Risoto líquido

“Filé mignon de javali com canjiquinha”, verdadeiras pérolas (em riqueza e tamanho também!).

Sorbet de jabuticaba

“Sorbet de jabuticaba”, vem sobre um bloco de gelo parecendo um urso polar lavanda sobre um iceberg à deriva, viajei!!!

E finalmente o famoso, “Aligot”. Exige muita habilidade do garçon para servi-lo. Acompanhem o vídeo:

Depois de nos servir, o garçon sempre muito simpático, disse que havia descoberto que é um antílope e que foi caçado pelo próprio chef. Comentei que havia lido numa revista uma entrevista com Alex Atala que revelava sua paixão pela caçada, herança de seu pai e avô.

Comemos o Aligot e ficamos nos perguntando o que o garçon fez com o restinho que não “pingou” nos pratos e ficou nas colheres. Pedimos bis!!!!

E para arrematar a noite “bolinho da Dona Palmyra  (castanha-do-brasil) com sorvete de uísque, chocolate e curry”. Era a mensagem dizendo para voltarmos à Terra que a viagem estava chegando ao fim.

Bolinho de castanha-do-brasil com sorvete de uísque, curry e rúcula

Parabéns ao destemido caçador, Alex Atala, que conseguiu como troféu a selvagem e desconhecida gastronomia brasileira. Capturou-a viva, entendeu-a e a domesticou. Deu-lhe refinamento, sofisticação e civilidade francesa para que ela pudesse mostrar ao mundo toda a sua singularidade e genialidade.

Cozinheiros

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Comments
7 Responses to “É ALPACA OU ALCE? O D. O. M. DE ALEX ATALA”
  1. Nina Paula Santos disse:

    Ma,
    vc com sua sensibilidade me mostrou um D.O.M. que ainda não havia descoberto.
    Sempre gosto de pensar em momentos gastronomicos inesquecíveis: café da manhã no mercadão, pastel de Belém- em Belem, cochinillo – em Segovia, castanha portuguesa – nas ruas de Lisbôa …
    Hoje relembrando o nosso jantar estou acrescentando mais um a minha lista: menu degustação do D.O.M. .
    Parabéns!!! esta leitura foi tão gostosa quanto nosso jantar.

  2. Roseli Correa Rodrigues Da Rosa disse:

    Oi Ma!!!

    Layout novo ,ficou bacana e bem organizado, autentico virginiano.rsrsrs
    Parabéns, parabéns AF… Belo texto,bela experiencia e bela compania, confesso que fiquei com uma pontinha de inveja (como dizem por ai: inveja branca se isso for possível).

    Carinhosamente
    Rosy

    • chefmarcelorodrigues disse:

      Oi, Mana! Não fica com invejinha não, vem pra Sampa que a gente vai no D.O.M. também. Mas daí vais ter que deixar a viagem pra Paris de lado!!! rs
      Beijão

  3. Rack disse:

    Nossa Marcelo!!!! que gostoso esse texto e esse jantarrrrrrrrrr….hummmmmmm.

  4. Rack disse:

    Afinal? é Alpaca ou Alce?

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