CHIMARRÃO – BEM-ESTAR E TRADIÇÃO

“Ilex Paraguariensis” (nome científico da erva-mate e tema da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii)

Hoje eu acordei mais cedo
Tomei sozinho o chimarrão
Procurei a noite na memória… procurei em vão
Hoje eu acordei mais leve (nem li o jornal)
Tudo deve estar suspenso… nada deve pesar
Já vivi tanta coisa, tenho tantas a viver
Tô no meio da estrada e nenhuma derrota vai me vencer
Hoje eu acordei livre: não devo nada a ninguém
Não há nada que me prenda

Ainda era noite, esperei o dia amanhecer
Como quem aquece a água sem deixar ferver
Hoje eu acordei, agora eu sei viver no escuro
Até que a chama se acenda
Verde… quente… erva… ventre… dentro… entranhas
Mate amargo noite adentro estrada estranha

Nunca me deram mole, não (melhor assim)
Não sou a fim de pactuar (sai pra lá)
Se pensam que tenho as mãos vazias e frias (melhor assim)
Se pensam que as minhas mãos estão presas (surpresa)

Mãos e coração, livres e quentes: chimarrão e leveza
Mãos e coração, livres e quentes: chimarrão e leveza

… ilex paraguariensis…
… ilex paraguariensis…

Friozinho chegando e a vontade de tomar chimarrão aumenta, apesar de eu manter o hábito o ano todo, com menos frequência no calor, mas o faço.

Este hábito já faz parte da minha vida há algum tempo. É sempre acompanhado de aconchego e bem-estar. Deve ser a mesma sensação de prazer que os fumantes sentem. O próprio ato de fumar é prazeroso, dizem os fumantes, assim como o chimarrão. Acalma a ansiedade para alguns, é estimulante para outros.  Quando os padres Jesuítas chegaram para catequizar o sul do Brasil, ficaram conhecendo o chimarrão através dos índios Guaranis que o chamavam de a “Erva do Diabo”, uma droga que tirava o cansaço e fazia com que não sentissem fome e até excitava-os sexualmente. Preparar um chimarrão é um ritual em que corpo e espírito se encontram: prazer do corpo e simbolização desse prazer (no espírito) por meio do rito. A bomba, objeto fálico que transporta para dentro de nosso corpo substâncias químicas capazes de alterar nosso humor. A vantagem do chimarrão é que essas substâncias trazem muitos benefícios ao nosso organismo. Talvez seja, por isso, que eu mantenho este hábito há tanto tempo. Comecei incentivado por uma roda de amigos, sentados em cadeiras de praia debaixo de uma mangueira numa tardinha gostosa de outono. E o melhor de tudo é que o chimarrão sempre vem acompanhado de um biscoitinho, pé-de-moleque, bolinho ou algum quitute, dizem que é para a erva não “lavar” o estômago.

Para preparar um bom chimarrão você vai precisar de:

1. CUIA DE CABAÇA OU PORONGO

Esta cuia em exemplo, está revestida em couro e costurada à mão. Tem uma base também de couro.

Para curar a cuia  é necessário que a mesma seja cheia antes do seu uso, com água quente, não fervida, e cinza de lenha de fogão ou lareira, para eliminar fungos ou bactérias, evitando mofo e ainda, enrijecer o casco, deixando-se por aproximadamente 24 horas, completando-se a água sempre que absorvida pelo porongo até o bocal da cuia. Após, a cuia deve ser lavada em água corrente deixando-se secar por 72 horas, na sombra e em local ventilado. Finalmente, colocam-se novamente, duas a três colheres de sopa de erva-mate nova de sua preferência e água quente (não fervida) para não trincar ou rachar a cuia, e para curtir a cuia parelha.

Após, novamente, deixa-se secar por mais 48 horas; o ideal é repetir o processo por duas ou três vezes.

Depois de curar a cada vez que uso a cuia, gosto de lavá-la bem só com água corrente, raspando o interior com uma colher, depois deixo-a próxima à boca do fogão. Assim quando vou aquecer água para o chimarrão, o calor do fogo seca a cuia por dentro evitando que mofe.

Uma vez fiz o mesmo procedimento numa cozinha industrial em que trabalhei. Ascendi a chama, coloquei a cuia deitada ao lado da chama e saí de perto para cuidar de outras coisas. Mas não atentei que a chama do fogão industrial é bem mais forte do que a do fogão caseiro. Minutos depois, Déia minha fiel ajudante mineira, sem intimidade nenhuma com chimarrão, veio até mim perguntando se aquilo era normal. Fui ver o que estava acontecendo e a cuia estava em chamas, uma labareda enorme. Corri e joguei a cuia embaixo da torneira, mas não pude evitar o estrago.

2. BOMBA PARA CHIMARRÃO (ESTA É DE PRATA COM A PONTEIRA E DETALHES EM OURO)

É importante investir numa bomba de boa qualidade já que ao sorver o chimarrão algumas partículas do metal da bomba são absorvidas pelo nosso organismo. Gosto das bombas em aço inóx que não inferrujam. Esta da foto é a minha favorita, em prata com detahes em ouro, além de serem mais saudáveis dão muito charme e sofisticação ao ritual.

3. ERVA-MATE EMBALADA A VÁCUO PARA GARANTIR O FRESCOR

Ao comprar a erva, escolha as embaladas a vácuo que garantem mais qualidade. Verifique também a data de fabricação e procure comprar um pacote mais recente.

4. ENCHER 3/4 DA CUIA COM A ERVA-MATE

Encha 3/4 da cuia com a erva-mate e tampe a boca com um pires ou com a mão. Vire a cuia horizontalmente segurando o pires, dê batidinhas de leve sobre a mesa, assim a erva se acomoda numa das laterais da cuia. Bem devagar, vire a cuia verticalmente e retire o pires.

5. ENCHA A CUIA COM ÁGUA TÉPIDA

Como diz a letra da música da banda gaúcha, a água não deve ferver, deve estar entre 75 e 85 ˚C. É o ponto em que a chaleira começa a cantar e pequenas bolhas começam a se soltar do fundo da chaleira, dá pra ver um vaporzinho se formando. Água muito quente “queima” a erva e deixa o chimarrão com gosto de lavado, água suja. Já a água muito fria não dá ponto de infusão e o chimarrão não fica cremoso, encorpado e com espuminha, igual a foto abaixo. Transfira a água aquecida para uma garrafa térmica que deve ser exclusiva para este fim, as que já comportaram outras bebidas como café, por exemplo, passa o gosto para a água.

6. INSERINDO A BOMBA

Tampe a saída da bomba com o dedo polegar e insira a bomba na cuia do lado em que foi colocado a água. Vire a bomba e solte o dedo. Comece a sorver lentamente pois o primeiro mate normalmente é mais amargo e vem cheio de pó. Depois é só ir colocando mais água à medida que for sendo servido. Não deixe a água ficar muito tempo na cuia, pois esfria e fica ruim de puxar.

7. VARIAÇÕES COM OUTRAS ERVAS

Para variar o sabor e as propriedades do chimarrão, outras ervas podem ser adicionadas. No exemplo acima, Macela que favorece o sono. Também uso dente-de-leão que evita gases nos intestinos após as refeições. Sementinhas de erva-doce para a digestão. Hortelã que fica fresquinho e favorece o hálito.

E para aqueles que ainda não estão convencidos e querem conferir as propriedades do chimarrão, vale a pena ler o quadro abaixo:

Composição da erva-mate:

  • Água, celulose, gomas, dextrina, resina aromática
  • Alcalóides: cafeína, metilxantina, teofilina e teobromina
  • Celulose
  • Glicídeos: frutose, glucose, rafinose e sacarose
  • Lipídeos: óleos essenciais e substâncias ceráceas
  • Proteínas: aminoácidos essenciais
  • Sais minerais: alumínio, cálcio, fósforo, ferro, magnésio, manganês e potássio
  • Taninos: ácidos fólico e caféico
  • Vitaminas: A, B1, B2, C e E

Benefícios da erva-mate:

Pesquisas feitas com a erva-mate sugerem os seguintes efeitos benéficos:

  • Estimulante da atividade física e mental
  • Estimula a circulação
  • Aumenta o ritmo cardíaco
  • Facilita a digestão
  • Favorece a evacuação e a micção
  • Promove a regeneração celular
  • Elimina estados depressivos
  • Aumenta a resistência de músculos à fadiga
  • Aumenta a força muscular
  • Desenvolve as faculdades mentais
  • Tonifica o sistema nervoso
  • Regulariza a respiração
  • Facilita a digestão
  • Promove sensação de bem-estar e vigor
  • Regula as funções sexuais
  • Efeitos cosméticos na pele
  • Previne a arteriosclerose
  • Melhora a memória
  • Previne gripes e alergias
  • Diurético
  • Diminui o colesterol e triglicerídeos
  • Aumenta o gasto energético
  • Favorece o emagrecimento
  • Previne a doença de Parkinson
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